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Em 1939, Orson Welles tinha 24 anos e nenhuma experiência em cinema. Mesmo assim, assinou com a RKO um contrato que lhe dava controle artístico total, incluindo o corte final, algo raro para um estreante. Dois anos depois, esse contrato resultou em “Cidadão Kane”.
O filme estreou em Nova York em 1º de maio de 1941, foi atacado por um dos homens mais poderosos da imprensa americana e perdeu dinheiro. Hoje aparece no topo de listas de melhores filmes de todos os tempos. A distância entre essas duas pontas é a parte mais interessante da história.
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Este texto reúne o que se sabe de documentado sobre os bastidores: o contrato, o roteiro dividido com Herman Mankiewicz, o trabalho do fotógrafo Gregg Toland, a briga com William Randolph Hearst e a redescoberta nos anos 1950.
Um contrato raro e um diretor vindo do rádio
Welles chegou a Hollywood depois do estouro de “A Guerra dos Mundos”, a transmissão de 1938 do programa de rádio The Mercury Theatre on the Air, na rede CBS. Ele já tinha nome no teatro e no rádio, mas nunca havia dirigido um longa. A RKO apostou nele mesmo assim.
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O contrato, de agosto de 1939, previa dois filmes, um teto de orçamento de 500 mil dólares por produção e liberdade para escolher elenco e equipe. O primeiro projeto anunciado, “The Smiler with a Knife”, foi engavetado: Welles disse que o estúdio não aceitava escalar Lucille Ball como protagonista. A produção só andou quando ele partiu para uma história original sobre um magnata da imprensa.
As filmagens começaram em 29 de junho de 1940 e a fase principal terminou em 24 de outubro. Houve retomadas em novembro, e as últimas cenas saíram em 30 de novembro de 1940. O custo final ficou perto de 840 mil dólares, bem acima do teto previsto no contrato.
O elenco também era de novatos no cinema. Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ray Collins e Everett Sloane faziam ali sua estreia em um longa.
O roteiro: Welles, Mankiewicz e uma briga por crédito
A estrutura do filme é uma série de flashbacks, cada um contado por uma pessoa diferente que conheceu Charles Foster Kane. Quem o ama, quem o traiu e quem só o observou contam versões que não fecham entre si. Esse desenho veio de Welles e de Herman J. Mankiewicz, roteirista experiente de Hollywood.
Num depoimento dado em 1949, Welles afirmou que Mankiewicz escreveu os diálogos dos dois primeiros rascunhos e que ele mesmo trabalhou no terceiro, participando o tempo todo das conversas sobre a estrutura das cenas. A versão final do roteiro é datada de 16 de julho de 1940.
Mankiewicz chegou a reivindicar o crédito sozinho junto ao sindicato de roteiristas. No fim, o crédito oficial ficou dividido: “Screenplay by Herman J. Mankiewicz and Orson Welles”. O filme ganhou o Oscar de roteiro original, o único dos nove em que foi indicado.
A discussão não acabou. A crítica Pauline Kael defendeu em um ensaio de 1971, “Raising Kane”, que a autoria era quase toda de Mankiewicz. Outros pesquisadores contestaram a tese, e a divisão exata do trabalho segue em debate.
Gregg Toland e o foco profundo
O diretor de fotografia era Gregg Toland, que já experimentava o chamado foco profundo antes do filme. A técnica mantém nítidos, ao mesmo tempo, o objeto próximo da câmera e o fundo da cena. Na prática, o espectador escolhe para onde olhar dentro do quadro, sem depender de um corte.
Um bom exemplo é a cena em que o jovem Kane brinca na neve, vista por uma janela, enquanto sua mãe assina os papéis que o tiram da família, em primeiro plano. Tudo está legível ao mesmo tempo, e a distância entre a criança e os adultos aparece só pela composição.
Welles reconheceu o peso de Toland de um jeito pouco comum para a época: colocou o nome dele no mesmo cartão de créditos que o seu. Também quebrou uma convenção de estúdio ao mandar construir os sets com teto, o que permitia filmar de baixo para cima. O teto aparece em plano e dá peso aos personagens, sobretudo a Kane.
Nem tudo era câmera e luz. A TCM estima que cerca de 80% dos planos usam algum truque ou efeito, de miniaturas a composições de imagem. A trilha de Bernard Herrmann e a montagem de Robert Wise completam o que o filme faz de novo com som e ritmo.
Hearst contra o filme
Kane é um magnata da imprensa, e o paralelo com William Randolph Hearst, dono de uma rede de jornais, era difícil de ignorar. Hearst proibiu qualquer menção ao filme em seus jornais. A colunista de cinema dele, Louella Parsons, ficou especialmente irritada com o projeto.
Há relatos de que executivos de outros estúdios se ofereceram para pagar mais de 800 mil dólares à RKO para destruir o negativo e as cópias. O presidente da RKO, George Schaefer, recusou. Também há registros de redes de cinema que resistiram a exibir o filme, o que reduziu o alcance da estreia.
Segundo relatos, o que mais incomodava Hearst era como sua companheira, a atriz Marion Davies, aparecia refletida na personagem Susan Alexander. Anos depois, em 1975, Welles escreveu um prefácio elogiando Davies como uma comediante de grande talento.
Estreia fria e redescoberta
O lançamento geral foi em 5 de setembro de 1941. O filme foi bem recebido por parte da crítica, mas não recuperou o próprio custo nas salas. Foi retirado de circulação e teve um prejuízo inicial estimado em 150 mil dólares, segundo a TCM.
A virada veio nos anos 1950, quando críticos franceses, com destaque para André Bazin, defenderam o filme e o trabalho de Welles. “Cidadão Kane” voltou aos cinemas em 1956. Na pesquisa da revista Sight and Sound, ficou em primeiro lugar de 1962 a 2002, ao longo de cinco décadas.
Em 2012, “Um Corpo que Cai”, de Alfred Hitchcock, tirou o filme do primeiro lugar. Na edição de 2022, o topo ficou com “Jeanne Dielman”, de Chantal Akerman, e “Cidadão Kane” aparece em terceiro. O American Film Institute o colocou em primeiro nas listas de 1998 e 2007, e em 1989 ele esteve entre os primeiros filmes escolhidos para o Registro Nacional de Filmes dos Estados Unidos.
O que observar na primeira vez
O filme não pede conhecimento prévio, mas rende mais quando você presta atenção em três coisas. A primeira é a profundidade dentro do quadro: repare em quem está perto e em quem está longe, e no que cada um faz. A segunda é quem narra cada trecho, porque a versão de cada narrador muda o que sabemos de Kane.
A terceira é o som. As conversas se sobrepõem, as vozes mudam de distância, e a música de Herrmann entra e sai com o clima da cena. Se tiver duas horas livres no fim de semana, vale como programa de tempo livre mais interessante que mais uma hora de rolagem de tela.
Quem gosta de cinema cheio de referências também pode comparar com o estilo de Wes Anderson, cujo “Os Excêntricos Tenenbaums” tem influência de “Soberba”, outro filme de Welles. E, se prefere histórias longas em série, há uma lista de séries para maratonar neste blog.
Perguntas frequentes
“Cidadão Kane” é baseado na vida de Hearst?
O personagem Charles Foster Kane tem muitos pontos em comum com Hearst, e o magnata reagiu como se o filme fosse sobre ele. Welles disse ter se baseado em figuras da época. Não é uma biografia, e Kane mistura traços de mais de uma pessoa.
O que significa “Rosebud”?
No filme, Rosebud é o nome de marca do trenó com que Kane brincava na infância, antes de ser separado da família. O escritor Gore Vidal sugeriu, num ensaio, que seria uma piada interna ligada a Marion Davies. É uma versão contada, sem confirmação oficial.
Quantos Oscars o filme ganhou?
Foi indicado em nove categorias e ganhou uma: roteiro original, para Herman J. Mankiewicz e Orson Welles. A estatueta de direção e a de melhor filme ficaram com outros concorrentes.
Welles tinha experiência em cinema?
Não em longas. Tinha 24 anos quando assinou com a RKO e vinha do teatro e do rádio. Ele aprendeu muito da linguagem do cinema durante a própria produção, com a ajuda de profissionais como Toland.
Vale ver se não gosto de filme antigo?
Vale uma tentativa. O filme é em preto e branco, mas a narrativa em flashbacks e o ritmo de investigação seguram quem não está acostumado. Se não funcionar nos primeiros vinte minutos, os bastidores contados aqui já ajudam a entender por que tanta gente o cita.





